O escritor – e também romancista, ensaísta, dramaturgo, filósofo, jornalista… – Albert Camus é uma daquelas pessoas que nos fazem pensar. Tendo nascido em 1913, na Argélia, quando a região era ainda território francês, ganhou, em 1957, o prêmio Nobel de Literatura. Faleceu três anos depois, num desastre automobilístico. Em seu livro “O Estrangeiro”, Camus nos apresenta o drama de um homem que, sem querer, matou uma pessoa. Foi, então, preso e julgado. No julgamento, seu ato foi analisado, dissecado e estudado nos mínimos pormenores. A impressão que o tal homem tinha era a de que estavam julgando uma outra pessoa, não a ele. Sentia-se um “estrangeiro” naquele julgamento. Aliás, ao longo de toda a sua vida havia se sentido um estranho no meio dos outros. Estava convicto de que as pessoas nunca o haviam compreendido e nem conhecido. No final do julgamento, ele foi considerado culpado e condenado à morte.
Lembrei-me desse livro porque creio que todos nós, num momento ou noutro de nossa vida, julgamos estar em situações semelhantes à desse “estrangeiro” – mesmo vivendo junto a amigos, colegas ou conhecidos. Percebemos que nossas ações, gestos e palavras são interpretados, julgados e condenados sem que nossos “juízes” se preocupem em nos ouvir, para saber o que, de fato, nos levou a praticar tal ação ou a dizer determinada palavra. Somos condenados não tanto pelo que fizemos, mas pelo que os outros julgam que fizemos ou falamos.
Será, contudo, que somente os outros é que caem nesse erro? Nós mesmos, nunca julgamos, criticamos ou condenamos alguém? É possível que por nosso “tribunal” passem, diariamente, diversas pessoas. Numa hora é nosso irmão de sangue; noutra, o colega de trabalho; desfilam por ele também nosso professor e o dono da banca de verduras; o vizinho do prédio e o desconhecido que de vez em quando encontramos. Então, do alto de nossa cátedra, lançamos nossas sentenças.
Serão infalíveis e corretos nossos julgamentos? Provavelmente, não! Afinal, vemos gestos, ouvimos palavras, mas não temos condições de penetrar na intimidade do coração dos outros. Compreende-se, pois, a advertência de Jesus: “Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos” (Mt 7,1-2). O Senhor sabe de que matéria somos feitos. Conhece nossas limitações e nossa visão parcial do mundo, das pessoas e dos acontecimentos. Quer evitar que pratiquemos injustiças por julgamentos falhos: “Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu? Ou como poderás dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu mesmo tens uma trave no teu?” (Mt 7,3-4). Nosso Mestre deixou-nos claro que seremos julgados com a mesma medida com que julgarmos os outros. Aliás, nós mesmos vivemos pedindo isso: “Pai, perdoai nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
Cada um de nós é um estrangeiro no mundo, na vida e no meio dos outros. Lembro-me, a esse respeito, da observação que ouvi de uma senhora, após o falecimento de seu marido. Haviam vivido juntos por mais de trinta anos. Manifestando surpresa, ela me disse: “Sempre pensei que conhecia meu marido. Mas acompanhando sua doença nos últimos meses de sua vida, vendo sua reação diante do sofrimento, sua serenidade e paz, concluí que não o conhecia. Tinha certeza de que, se enfrentasse uma situação assim, ele ficaria nervoso, seria explosivo e, até, violento”. Enganou-se totalmente. Se somos “estrangeiros” para os outros, o outro também o é para nós. Longe, pois, de vivermos atirando pedras de condenação, sigamos a orientação dada pelo apóstolo Paulo aos cristãos de Corinto: “Se bem que de nada me acuse a consciência, não é por isso que sou justificado: meu juiz é o Senhor. De modo que não queirais julgar nada antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual porá às claras os segredos ocultos e dará a conhecer os desígnios aos corações. E então receberá cada um de Deus o louvor que merece” (1Cor 4,3-5).
Dom Murilo S. R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil