A convite do bispo diocesano de Bom Jesus da Lapa, fui participar da maior romaria anual ao santuário daquela cidade. Não faltavam motivos para aceitar o convite. Em primeiro lugar, pela fama desse Santuário, que anualmente atrai dois milhões de romeiros de vários estados do país. Sabia, por testemunhos e livros, que se tratava de um lugar sagrado único, por ser formado por grutas. Depois, o convite que havia recebido para ir até lá tinha uma força especial, pois partia de um catarinense que foi ordenado bispo por mim, em Rio do Sul – SC, quatro anos atrás: Dom José Valmor César Teixeira, SDB. Queria Dom César que eu presidisse os dois últimos dias da novena preparatória e o encerramento das festividades. Penso que, na verdade, o que ele desejava era que eu tivesse a oportunidade de conhecer de perto a fé dos romeiros que, não sem grandes sacrifícios, dirigem-se, já há 321 anos, àquele Santuário.
Fui a Bom Jesus da Lapa, fiz as pregações programadas e confesso que muito aprendi com os romeiros que, com a simplicidade e a profundidade de sua fé, me permitiram ver de perto a ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo. Tenho certeza de que, se lhes perguntasse o que significava a experiência religiosa que estavam vivendo, eles provavelmente pouco falariam. Mas sua alegria, expressa pelo brilho de seus olhos, diriam mais do que mil palavras.
A história do Santuário do Bom Jesus da Lapa começou em 1691. Antes disso, em 1679, Francisco de Mendonça Mar, português, ourives e pintor, então com 20 anos, chegou a Salvador, onde instalou sua oficina. Encarregado de pintar o palácio do Governador Geral do Brasil, na Bahia, desentendeu-se com os que o haviam contratado e, em vez de receber o pagamento de seus trabalhos, acabou sendo preso. Uma vez solto, resolveu fazer uma experiência radical de Deus: distribuiu seus bens aos pobres, fez-se pobre e, tendo nas mãos uma imagem de Cristo Crucificado, partiu como peregrino pelo sertão da Bahia. Vários meses depois, numa tarde, avistou um morro de pedra às margens do Rio São Francisco. Ao circundá-lo, viu uma gruta e logo outra. Era tudo o que queria, para levar uma vida de solidão e oração. Colocada a imagem do Bom Jesus numa das grutas, e a de Nossa Senhora das Dores (a Virgem da Soledade) em outra, em pouco tempo começou a receber a visita de curiosos, pobres, doentes, índios e pessoas desorientadas. Servia-as com amor e, para melhor atender os doentes e idosos, construiu um pequeno hospital, onde ele próprio era o enfermeiro. A fama daquele que passou a ser conhecido como “o Monge Francisco” ou “o Monge da Gruta” logo se espalhou, chegando aos ouvidos do então arcebispo de Salvador, Dom Sebastião Monteiro da Vide. Para conhecer melhor a ação desse “monge”, Dom Sebastião mandou um emissário ao local das grutas. Como as informações que recebeu a respeito de Francisco eram positivas, o arcebispo chamou-o à capital baiana e, depois de prepará-lo devidamente, ordenou-o sacerdote e nomeou-o Capelão do “Santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa e de Nossa Senhora da Soledade”. Era o ano de 1706. O até então “monge” passou a ser conhecido com o nome de Padre Francisco da Soledade. A partir daí, multiplicaram-se as romarias, especialmente na festa do Bom Jesus, a 6 de agosto, e no dia 15 de setembro, festa da Virgem da Soledade.
As grutas do Santuário Bom Jesus da Lapa são um desses presentes únicos da natureza. Parece que foram criadas para ser, um dia, um santuário – isto é, um local para se louvar, agradecer e pedir favores ao Criador. A imagem do Bom Jesus leva os romeiros a tomar consciência de que sua vida, seus sofrimentos e trabalhos foram antecipadamente vividos por aquele que os convida: “Vinde a mim, vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei” (Mt 11,28).
Romeiro entre os romeiros, ao final de minha experiência percebi que me repetia a mesma pergunta que cada romeiro faz ao próprio coração, quando deixa Bom Jesus da Lapa: “Quando será que voltarei a este Santuário?…”
Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Os romeiros do Sr. Bom Jesus da Lapa, com certeza voltaram este ano para suas casas com a fé ainda mais renovada e alegres na esperança, pois, o grande catequista da Bahia – o nosso Arcebispo Primaz do Brasil, com sua presença e palavras, nos levou ainda mais a aproximarmos intimamente do Bom Jesus por meio das grandiosas meditações e por estar caminhando em sintonia com o povo de Deus. Gravou-me no coração o vosso olhar D. Murilo, com suas preces sinceras e vibrante emoção por está presente na gruta de pedra e de luz. Que o Sumo e Eterno Sacerdote, continue sempre abençoando a vossa missão!