Duas vezes o evangelista Lucas descreveu a volta de Jesus ao Pai. A primeira foi no final de seu Evangelho, quando acentuou o gesto de bênção: tendo ido para fora da cidade de Jerusalém, até perto de Betânia, Jesus ergueu as mãos e abençoou os discípulos. “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu” (Lc 24,51). A segunda vez foi no início dos Atos dos Apóstolos, quando foi destacada, por Jesus, a missão de seus seguidores: serem suas testemunhas, “até os confins da terra”. Esse momento de despedida de Jesus deu origem, na Igreja, à solenidade da Ascensão do Senhor – solenidade que estamos celebrando hoje.
Pouco depois desse acontecimento – precisamente, depois de Pentecostes –, os discípulos do Senhor partiram pelo mundo, anunciando a todos o que haviam ouvido e experimentado no contato com seu Mestre. Queriam que outros tivessem a possibilidade de viver segundo os valores que agora orientavam sua vida. Assim, de geração em geração, de anúncio em anúncio, o Evangelho chegou até nós. Na concretização dessa missão, cada época empregou os meios de que dispunha. Para nos incentivar a usar no trabalho evangelizador os meios que nosso mundo coloca hoje à nossa disposição – por exemplo: o jornal, a revista, o rádio, a televisão, a internet etc. – a Igreja instituiu o Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado anualmente no dia da Ascensão. Para cada ano, o Papa propõe um tema, para ser refletido e debatido, especialmente pelos comunicadores. O tema deste ano é: “Silêncio e Palavra: caminho de evangelização”.
Não deixa de ser curiosa a lembrança da palavra “silêncio”, num dia que em que se quer destacar a necessidade de repartirmos com outros o anúncio recebido. Bento XVI explica a razão: o silêncio é um aspecto do processo humano de comunicação – aspecto frequentemente esquecido. “O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo.” Num mundo e numa época em que o que mais se faz é falar (estão aí os celulares, que não me deixam mentir), somos chamados a escutar – talvez, a aprender a escutar. “No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos.” Quem se cala, permite que a outra pessoa fale e diga quem ela é. Quanto mais formos capazes de escutar o outro, mais seremos capazes de dialogar. Quando diminuem as palavras, maiores são as condições de prestarmos atenção aos gestos do outro, às expressões de seu rosto e de seu corpo. Um ambiente de escuta favorece a comunhão, pois nos ajuda a penetrar na intimidade de nosso interlocutor.
A palavra do outro nos enriquece. Mas quem de nós está disposto a escutar essa palavra? Proponho um teste: na próxima vez em que você participar de uma conversa de cinco ou seis pessoas, preste atenção. Provavelmente você verá que todos vão querer falar, pois cada qual tem alguma coisa a dizer, e julga importante fazê-lo. É até possível que aconteça o seguinte: antes que o primeiro termine de expor sua ideia, um outro o interromperá, dizendo que aquilo que está escutando lhe faz lembrar o que viu na televisão (ou escutou no rádio, ou leu no jornal). E antes que esse segundo termine sua intervenção, haverá um terceiro que terá uma história para contar; também esse, com muita probabilidade, será interrompido…
Jesus Cristo falou muito, escutou muito e também nos ensinou com seu silêncio – especialmente no Calvário: “No silêncio da Cruz, fala a eloquência do amor de Deus vivido até o dom supremo”. Ora, “se Deus fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a possibilidade de falar com Deus e de Deus”.
É importante aprendermos a escutar; “isso é particularmente importante para os agentes da evangelização: silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo” (Bento XVI) – um mundo que fala muito e que precisa valorizar o silêncio.
Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
Presisamos sim nos educar, mas isto tambem requer exercicio, que é o de paciência. A paciência nos ajuda a silenciar^.