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DEUS SE REVELA NA LUZ

 

 

 

            “Em Cristo Jesus, vós que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Ele veio para anunciar a paz a vós, que estáveis longe, e também àqueles que estavam perto” (Efésios 2, 13-14.17).

            Neste domingo, em nossas comunidades eclesiais, celebramos a Epifania do Senhor, isto é a sua manifestação aos Magos que vieram de longe. A exemplo dos Magos que partiram do longínquo Oriente à procura de Jesus, também nós procuramos o Senhor. Jesus veio ao mundo para fazer-se encontrar por nós, e revelar-nos o rosto de Deus.

            Na narração evangélica do Natal os vários protagonistas encontraram um sinal, cada um adaptado a si, para reconhecer naquele Menino o Filho de Deus. Os pastores uma humilde manjedoura, os magos estudiosos do céu uma estrela, os teólogos da corte de Herodes os textos antigos dos profetas, e Herodes mesmo com os três sábios vindos de longe a Jerusalém. Não todos porém pelo mesmo  motivo empenharam-se a encontrar Jesus: os teólogos da corte não deram um passo para encontrá-lo, Herodes como político astuto fez os seus cálculos mas não o procurou. Os Magos, ao contrário, fizeram muito: percorreram longa viagem à luz da estrela, e por fim encontraram o Filho de Deus nascido da Virgem Maria. “Ao verem a estrela, diz o evangelista Lucas, experimentaram uma grandíssima alegria”.

            O relato do Natal, rico de símbolos, nos propõe portanto a luz, símbolo cheio de beleza, que nos fará sempre meditar: o esplendor da luz a tudo envolvendo, como ambiente em que Deus se revela. Até mesmo o filósofo Platão havia escrito: “A luz é a sombra de Deus”. Jesus foi explícito apropriando-se desse símbolo: “Eu sou a luz do mundo” (João 9, 5).

            O apóstolo e evangelista João conviveu com Jesus e lhe sobreviveu até atingir mais de 90 anos. Sua vida foi uma longa vida de meditação daqueles dias inesquecíveis de convivência com o Senhor. Deixou-nos como eco, ao início do seu evangelho: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos seres humanos.  A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a compreenderam. Veio ao mundo a luz verdadeira que ilumina todas as pessoas” (João 1, 4-9).

            Epifania é revelação de Deus, no esplendor da luz. São muitas as expressões semelhantes, como “Revesti-vos de luz, vem a tua luz, a glória brilha sobre ti, sobre ti resplende o Senhor, os povos caminharão à tua luz, os reis ao esplendor do teu brilho”.

            A luz no mundo antigo, talvez mais do que no mundo moderno, era vista em oposição às trevas. A luz era figura do mundo criado por Deus, daqueles que tinham boa relação com Ele, que praticavam a justiça e o amor. Esses viviam na luz do vulto de Deus, acolhiam a sua lei que era luz, lanterna para seus passos. As trevas, ao contrário, representavam o mundo que se afasta de Deus, o âmbito da incredulidade, o império dos espíritos malignos; os maus praticavam as obras das trevas.

            Jesus fez seu este modo simbólico de ler os fenômenos assim conhecidos e naturais das luzes e das trevas e deles se serviu para descrever a sua missão redentora. “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não caminhará nas trevas, mas terá a luz que dá a vida” (João 8,12). Enquanto é dia, eu devo fazer as obras do Pai que me enviou. Pois vem a noite, e então ninguém poderá agir” (9,4). Serão as trevas do Gólgota. Enquanto há luz, crede na luz, a fim de que vos torneis filhos da luz” (12, 6).

            O profeta Isaias, cap.60, diz: “Os povos caminharão à tua luz e os reis ao clarão da tua aurora”. É fácil reconhecer nisso a chamada de todos os povos à salvação em torno de Jesus, pagãos não menos que os povos pertencentes ao povo eleito. Para Jesus não existem povos eleitos e povos de segunda classe, mas todos são destinados a ser o povo de Deus, porque Deus é pai para todos.

O projeto anunciado por Jesus ainda não é a plena realidade. O projeto deve concretizar-se; deve ser medido com a liberdade dos homens, que é aberta à procura de Deus, ou se fecha na sua recusa. Quem se põe em viagem no caminho para encontrar o Senhor, como fizeram os Magos, ou acabar na hostilidade de Herodes. A cooperação humana é indispensável.

Dom Geraldo M. Agnelo, Cardeal Arcebispo de Salvador

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