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Aproximamo-nos do tempo da Quaresma. A palavra de Deus, neste domingo, nos apresenta relatos da vida de três vocacionados.
Do nada Deus chamou todas as coisas à existência. Chama o homem da existência à plenitude de vida em Cristo. Chama a sair dos horizontes limitados das nossas idéias, para viver na fé; a ultrapassar as aspirações do nosso coração, para viver na esperança; a superar os desejos do egoísmo, para viver na caridade. Nem sempre nos comportamos em harmonia com nossa vocação cristã.
Os relatos de três chamados à uma particular missão que desenvolverão papel importante na história religiosa da humanidade. Interessam-nos como cristãos porque também nós somos chamados. Mesmo se costumeiramente para nós não usa meios espetaculares. Os três relatos são do profeta Isaias, do apóstolo Pedro e do apóstolo Paulo.
Isaias viveu no oitavo século antes de Cristo. Sua vocação em uma visão, rica de símbolos, e com alto valor espiritual (Isaias 6,1-8).
Lucas, 5,1-11, nos apresenta Pedro e outros apóstolos coinvoltos na pesca miraculosa: de pescadores de peixes, eles se tornam pescadores de homens.
Paulo, 1Corintios 15,1-11, enfim acrescenta alguns particulares ao episódio da sua conversão, acontecida na estrada de Damasco.
No primeiro momento do chamado, o Senhor se apresenta e faz conhecer toda a riqueza do seu ser, a sua transcendência, onipotência, santidade. Isaias contempla Deus num alto trono, e diz que as bordas do seu manto enchiam o templo. Pedro, por sua vez, naquele momento viu em Jesus somente um mestre, que ensinava doutrinas e princípios, como todos os mestres deste mundo; mas na barca assiste ao prodígio da pesca miraculosa, e percebe a presença do divino. Quanto a Paulo, na estrada de Damasco, fica fulgurado improvisamente, cego, derrubado por terra. O primeiro momento, é pois o encontro desconcertante com a majestade de Deus.
Na fase sucessiva o chamado diante da luz da santidade e majestade divina, vive uma situação de terror pela distância infinita entre o Criador e a criatura, descobre a própria pequenez, sente o peso de seu passado, de seus pecados. Gostaria de fugir. Diz Isaias: “Sou um homem de lábios impuros!”. Pedro confuso diante da pesca miraculosa se prostra de joelhos diante de Jesus e balbucia: “Senhor, afaste-se de mim, sou um pecador”. Quanto a Paulo, sentirá nos ouvidos ao longo de sua vida as palavras de Jesus: “Eu sou Jesus que tu persegues!” e provará toda a humilhação por ter perseguido Jesus na sua Igreja nascente, nos primeiros cristãos.
Na terceira fase, a resposta do Senhor. Positiva, confortante. Porque Deus ama suas criaturas, perdoa, reabilita, e oferece plenitude de vida. Na visão de Isaias, Deus tocou-lhe os lábios e desapareceu a sua iniqüidade. A Pedro, Jesus lhe assegura: “Não tenhas medo!”. Paulo, feito apóstolo, recordando a transformação acontecida nele, reconhecerá: “Por graça de Deus, sou aquilo que sou”. Há pois um momento em que os chamados encontram conforto e encorajamento. Sentem-se dispostos a entrar no projeto de Deus e assumir uma missão. Deus não quer agir sozinho. Aos ouvidos de Isaias percebe que Deus quer ter necessidade dos homens. Pedro ouvirá de Jesus: “De agora em diante serás pescador de homens”. A barca é a Igreja de Jesus Cristo. A nossa Igreja. A Paulo: apóstolo do Evangelho entre os pagãos.
A última fase: a resposta entusiasta. Isaias: “Eis-me aqui, envia-me!” Pedro e os dois irmãos Tiago e João, puxaram as barcas para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus. Paulo escreverá com franqueza: “A graça do Senhor em mim não foi vã, preguei mais que todos”. O chamado de todos é para construir o reino de Deus.
O que o Senhor fez a alguns hoje lembrados diz respeito também a cada cristão, mesmo sem sinais estrepitosos. Perguntemo-nos: Sentimos o fascínio de Deus, chamados por ele? Deus se revela no mistério. Somos convidados pelo Senhor. O relato de nosso chamamento cada um de nós escreverá com a própria vida, passando pelo mundo como Jesus: fazendo somente o bem. Provemos escrever bem o relato de nossa missão entre nossos familiares, amigos, no mundo.
Dom Geraldo M. Agnelo, Cardeal Arcebispo de Salvador
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