A espiritualidade do dízimo

Dom Murilo S.R. Krieger, scj Arcebispo de São Salvador da Bahia   Para mim, pensar na espiritualidade do dízimo é lembrar-me de um texto que não deixa de ser curioso,

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

 

Para mim, pensar na espiritualidade do dízimo é lembrar-me de um texto que não deixa de ser curioso, por ser de um religioso trapista. Para quem não se recorda, lembro que os trapistas são uma ordem contemplativa. Eles vivem no silêncio e dedicam a sua vida à oração e ao trabalho. Eles não fogem do mundo; eles têm o mundo presente em sua vida e, particularmente, em suas orações. Entende-se, pois, que foi um monge trapista que escreveu um artigo sobre este tema (cf. CNBB, “Dízimo: uma proposta bíblica”). Desse artigo, recordo dez pontos:

1º – “O dízimo é uma maneira de se crescer em comunhão, comunhão entre as pessoas, comunhão com Deus e comunhão pessoal”;

2º – “Não chamem nada de ‘seu’, mas partilhem todas as coisas” (Santo Agostinho). A partilha dos bens é o primeiro grau de uma verdadeira partilha de vida. Quem quiser ter vida em comum, deve começar com a partilha dos bens;

3º – Uma paróquia que pratica o dízimo, “cria um ‘olho’ para o pobre e, também, para os doentes, para os jovens, para os anciãos, para a formação, para toda uma gama de necessidades”. Uma paróquia que tem consciência de sua responsabilidade cristã olha para os necessitados que vivem fora dos seus limites.

4º – Uma comunidade mostra o amadurecimento de sua consciência cristã quando dá “o dízimo do dízimo” para a sua própria diocese;

5º – O dízimo ajuda uma comunidade a alcançar a unidade – isto é, a ter uma só mente, um só coração e uma só vontade;

6º – Os membros de uma comunidade devem saber doar também o seu tempo: “o dom do tempo, o dom da dedicação, o dom do interesse em criar laços dentro da paróquia”;

7º – Uma paróquia é uma família que, além das necessidades materiais, tem muitas outras necessidades. O dízimo empurra as pessoas para uma pertença efetiva e afetiva entre os membros da paróquia. “Não basta só dar dinheiro. Tem de dar tempo, afeto e também energia. Isso é indispensável numa comunidade paroquial”;

8º – O dízimo pode e deve levar a comunidade a ter unidade de mente, isto é, todos os seus membros são chamados a cultivar os mesmos valores do Evangelho e a ter unidade com o Papa, com os bispos e com o restante da comunidade. Uma comunidade em que, em assuntos de fé e moral, cada um pensa como quer, não tem unidade de mente. Afinal, “não é toda opinião que vêm de Deus. Uma comunidade de fiéis é uma comunidade que tem a mesma fé”;      9º – O dízimo ajuda a construir a comunidade – isto é, ele ajuda os seus membros a se identificar uns com os outros, a partilhar os seus bens, os seus afetos e as suas convicções;

10º – Enfim, uma pessoa que segue um caminho conduzida pelo Espírito Santo – isto é, uma pessoa que tem uma espiritualidade -, aprende, em pouco tempo, que “há maior alegria em dar do que em receber” (At 20,35). Por isso, contribui com o seu dízimo na linha proposta pelo apóstolo Paulo: “Cada um dê conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7).

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